O romance A Divorciada: Entre o tempo
de escrever e o tempo de ler
Daniela Callado*
|
E |
m fins do século XIX e início do século XX, Francisca Clotilde, nascida em 1862, em Tauá, interior do estado brasileiro do Ceará, superou as imposições socioeconômicas de seu ambiente, por meio de uma personalidade forte e um objetivo convicto iniciando uma carreira pioneira para a época e o lugar. Tornou-se escritora: poetisa, contista, teatróloga, jornalista, romancista e professora, fundou uma escola para “ambos os sexos” e uma revista: Estrela, que administrou com sua filha, Antonieta Clotilde, por longos e inacreditáveis quinze anos (1906-1921).
Quando as descobertas científicas e as mudanças sociais, como a abolição da escravatura no Brasil em 1888, passaram a ser temas literários frequentes, deixando-se de lado a visão romântica distorcida da realidade e instigando o realismo-naturalismo a descrever as condições de vida reais de pessoas de diferentes classes sociais, Francisca Clotilde tomou impulso e colocou em debate um tema que até hoje, mais de cem anos depois, ainda altera os ânimos mais afobados. Entre sua diversificada obra, a escritora cearense escreveu um romance chamado A Divorciada – tema principal desta resenha, que, por dois motivos, passou quase em branco pela crítica: um por uma idéia preconcebida pelo senso comum, por ser escrito por uma mulher reivindicando a condição de cidadã livre de conceitos e controles sociais que empobreceriam sua vida privada e limitariam sua vida pública, e outro pela falta de um trabalho de sistematização dos literários e críticos da época o qual teria como fim levar informações para o público mais geral sobre escritores excluídos do que chamamos hoje de cânon literário. Essas deficiências impediriam, até fins do século XX, de perceber-se o caráter avaliador social do qual diversos romancistas se revestiam para contar sobre a sociedade na qual viveram e, no caso dos últimos, vivem. Como Otacílio Colares afirmou, criou-se um “cinturão do gelo” em torno de uma geração inteira de escritores contemporâneos da autora.
Quanto mais seria a surpresa de ter o romance sobre a história de Nazaré reposto à vista do público. Publicado em 1902 e, em 1996, republicado, poderia se dizer que “A Divorciada” atende a uma mistura de escolas. Há tanto um resquício de romantismo no que se refere, entre outros, à construção de algumas personagens e de ambientes nos quais a natureza se sobressai, como há características do realismo-naturalismo como a descrição fiel de fatos ligados à enfermidade da protagonista e a desilusão que atravessa com um casamento fracassado. Une-se a isso o reconhecimento dos problemas a serem assumidos, e a capacidade de adaptar-se a eles, enfrentando-os e buscando solucioná-los; busca essa que é enfrentada, mesmo acatando a possibilidade de que tudo, ao final, poderá dar errado. Esse último aspecto assenta-se, sobremaneira, na escola moderna. Apesar de a própria autora ter afirmado que seu romance não pertenceria a nenhuma escola, os dados acima mostram pelo menos a passagem dele por aquelas características. Especialmente no que se refere às fases do enredo, o romance, do mesmo modo, adota o estilo romântico. Primeiro, surge uma harmonia introdutória, na qual um dos antagonistas de Nazaré, o Chiquinho, é apresentado em uma missa de igreja e ela é encenada em casa, envolta por suas irmãs e por seu pai. Nos capítulos seguintes, aparecem os conflitos e o exacerbamento destes, com fatos aparentemente despidos de solução, como o casamento sem amor com Artur, o primo advogado sem escrúpulos, por pressão paterna, e a partida, em busca de fortuna, de Chiquinho, a quem ama, ao Amazonas. Esses levam a mais conflitos, como a falência do marido, jogador inveterado e a leviandade da prima Glória, que a coloca em situações limites, até que o enfrentamento dos problemas atina a protagonista a desativá-los, como o pagamento das contas do marido e o pedido de divórcio, restabelecendo uma harmonia final, que poderá continuar ou não. No caso de Nazaré, essa harmonia prevalece, em um sinal típico de fins de século XIX e início do século XX, quando o movimento de mulheres em projetos sociais ligados à obra caritativa abriu-lhes o caminho para a atuação na esfera pública. A prosa moderna de Clotilde, com maestria, segura o enredo principal até o final da história, sublinhando-o em cada capítulo, acrescentando os subenredos paralelamente, sem colocá-los em confronto com o primeiro. Sua linguagem, por vezes deleita, como em “sentiu acerejarem-lhe as faces”, por outras, assume traços padrões, encastelando o coloquial em momentos necessários, quando da troca de vozes das personagens e do narrador – ou narradora, como em “e foi preciso que um psiu meio severo quebrasse aquele rumor intempestivo”. Nos dois casos, a autora utiliza expressões típicas da época, que, para a nossa admiração, ainda são ouvidas atualmente em gírias juvenis, como “cacete”, no sentido de algo chato. Há, de igual modo, momentos em que assume as expressões mais eruditas, como quando usa o termo “adjetivos encomiásticos”, ou empresta ao texto um ar mais meigo, de gente da terra, como em “arenga” e “mesinha carunchosa”. No enredo principal, o amadurecimento psicológico de Nazaré é simples, porém cheio de nuances e de fim inesperado, mesmo em sua obviedade sentimental.
Nazaré, filha do coronel Pedrosa, adoece de tuberculose. Por recomendação médica, para que possa recuperar-se, a família muda-se para o campo. Já no início do romance, a autora focaliza a atração feminina generalizada por Chiquinho, rapaz humilde do povoado, em plena missa católica. Deixa com isso, a narradora transparecer a vontade sexual feminina ativa, quebrando a idéia romantizada de que o amoroso feminino contextualiza-se somente no ato passivo. “Qual é a tísica?” é uma pergunta que afere a um dos momentos de sarcasmo do romance, propenso a espelhar a gaiatice cearense. Depois de situar a família em sua nova residência, de expor a morte da esposa do coronel e de apresentar o tipo de leitura que Nazaré fez aos 13 anos de idade, como o poema sobre Paulo e Virgínia, salientando o aspecto afetado esvaído da protagonista, o narrador implícito adentra no caráter psicológico do romance. Em seu momento mais íntimo, no qual decide mudar o curso de seu destino, Nazaré revolve os fatos, marcando o momento. Aqui situa as personagens de acordo com seu caráter moral, o que era comum acontecer em romances de fins daquele século, como em: “…o tesouro mais sólido, a recomendação mais preciosa é um caráter honesto e uma consciência sem mancha.” Isso ocorre principalmente com a sobrecarga moral que as personagens femininas carregam. Sobretudo Artur, o antagonista principal, vai delinear emotivamente o feminino, por ele desconhecido. Quando vem a saber da paixão de Nazaré por Chiquinho, comenta que “Eram assim as mulheres. Não faziam questão de escolha. O primeiro que aparecia com palavras de sedução enfeitiçava-as.” Aquele, por sua vez, em outra ocasião, por insegurança da amada considerar a possibilidade da troca de direção do olhar, assume seu lado indigesto, pensando que “e ela era mulher e portanto fácil de variar, sobretudo nas condições vantajosas que lhe traria o enlace com o primo.” Interessante notar que a autora desprende-se de sua própria marcação de gênero para compor as personagens masculinas, conferindo voz masculina ao que vem a ser a narradora ou o narrador. Atitude essa que pode ser vista como um balanceamento para o tema – da decisão feminina pelo divórcio – no romance, já em si de conotação avançada para a sociedade do tempo de Clotilde. Note que a narração chega aos extremos tanto na ação das personagens, como a obsessão de Nazaré pelo ato da caridade como preenchimento de uma vida vazia de sentido, que por fim termina por contaminar Chiquinho para conferir-lhe do mesmo modo uma áurea de ser de caráter superior, quanto na imagem feminina, dotada de clichês, transmitida pelas personagens masculinas. Deste modo, Francisca Clotilde alcança o feito de produzir uma obra que se mostra qual um espelho de seu tempo. Entretanto, o romance precisa ser entendido como uma tradução que se faz do resultado de entrelaçamento de ações do tempo histórico com o ato de escrever do tempo do escritor pelo leitor. Este último entende o entrelaçamento, inconscientemente, deleitando-se com a obra, que tem como uma das razões de existir presentear o leitor com o ato da fruição, ou conscientemente, quer dizer, mesmo deixando de se identificar com ela, percebendo naquela os traços do passado. Deste último modo, ele retrabalha o texto, dando-lhe um novo sentido, incluindo o de seu próprio tempo àquele.
*Daniela Callado é sócia correspondente e reside na Alemanha